Rafael, o
que você pensa sobre a Ronaldodependência? É uma situação
que realmente existe ou foi plantada pela imprensa, tendo em vista
os recentes maus resultados do time
merengue?
Acho que é um
exagero. É claro que o Cristiano Ronaldo faz falta em qualquer time
e não é facilmente substituído. Se fosse, não seria um dos melhores
jogadores do mundo. Então é normal que o Real sinta a sua falta
quando ele não está em campo. É um cara que decide o jogo a
qualquer momento, e vinha fazendo isso antes de sofrer a lesão. Mas
também é importante lembrar que o Real Madrid já não estava jogando
bem mesmo antes disso, apesar de ter conseguido bons resultados e
até algumas goleadas exageradas e que não demonstravam com
realidade o que tinha acontecido em campo.
O que dizer
sobre o posicionamento do meia brasileiro Kaká? Manuel Pellegrini
está fazendo com que ele tenha a mesma possibilidade de mostrar seu
futebol assim como fazia no
Milan?
É muito
difícil explorar o Kaká na função que ele fazia no Milan. São
estilos muito diferentes de jogo. Na Itália, o brasileiro tinha a
proteção de um meio campo muito marcador e podia chegar ao ataque
muitas vezes como um segundo atacante. No Real Madrid ele precisará
ser mais “meia”. Terá que evoluir na função, que não é
fácil, até porque o último que jogou desta maneira no time foi o
Zidane. O Pellegrini ainda não sabe exatamente como vai escalar
quando tiver todos à disposição. Começou com o Kaká pelo meio em
uma espécie de 4-2-3-1 “torto”, com o Raúl pela
direita, mas depois passou a jogar com praticamente um losango no
meio, com o Kaká fazendo uma função mais próxima da que exercia no
Milan e na seleção brasileira. A principal diferença é que ele é um
jogador de muita explosão física, aproveitando sempre a sua
qualidade nas arrancadas, o que nem sempre será possível no Real,
que tem o claro objetivo de ser um time de posse de bola. E, na
Espanha, ele terá a responsabilidade de ser um dos caras que
distribuem o jogo e fazem a bola rodar. Acho que vai se adaptar com
o tempo e tem tudo para crescer bastante ainda.
Em relação à
formação tática ideal, você acha que a formação 4-2-2-2, usada até
hoje, é a ideal para os jogadores de que o elenco dispõe? Deve-se
retornar ao 4-5-1? Ou o time merengue deve “copiar” o
Barcelona e partir para o 4-3-3?
Eu
sinceramente não sei se existe uma formação tática ideal para o
Real neste momento. O Pellegrini precisa treinar algumas
possibilidades e ver ali o que pode funcionar melhor. No início da
temporada, eu acreditava no 4-2-3-1, com Xabi Alonso e Lass;
Higuaín na direita, Kaká pelo meio e C.Ronaldo na esquerda, com
Benzema na frente. Mas com o início de temporada, passei a achar
que o Benzema não vai conseguir se firmar no Real Madrid como essa
referência. Ele até pode se tornar aos poucos, mas para começar a
render o que pode e superar essas críticas iniciais, vejo o Van
Nistelrooy como principal companheiro do francês. Acredito que com
um “9” de verdade, que sabe finalizar e fazer o pivô, o
Benzema vai crescer bastante. O grande problema é a sequência de
lesões do holandês, que é o único com essas características. Aliás,
acho que este é o principal problema do elenco do Real no momento.
A ausência de um atacante de área. O Pellegrini não acredita no
Raúl como atacante; o Higuaín rende infinitamente mais jogando fora
da área; e o Benzema ainda não mostrou ser o artilheiro que todos
esperavam. Talvez esteja faltando um Negredo no
elenco...
Disputa
Higuain x Benzema. Quem deve ser o companheiro de Raul? Ou melhor
ainda: qual deve ser a dupla de ataque madridista? Raul ainda
merece cadeira cativa entre os 11
titulares?
Vaga cativa
eu não acho. Mas acho que tem que ser muito respeitado, não só pelo
que foi mas pela inteligência que ainda tem dentro de campo. É como
o Guardiola descreveu brilhantemente o Raúl em um trecho do livro
“Anjos Brancos”: o Raúl é o jogador perfeito, pois sabe
como ninguém a hora de voltar para o meio campo, de conduzir mais a
bola, de fazer um passe rápido, de tentar a finalização. Não é o
tipo de cara que irrita o torcedor, pois sempre faz o que deve ser
feito com a bola (não com essas palavras, mas resumindo, é isso).
No clássico contra o Barça, por exemplo, eu teria escalado o Raúl
em vez do Higuaín. O grande problema do ataque é o que falei na
resposta anterior. As opções não parecem se completar. Ainda não
vemos surgir uma grande dupla, como foi Raúl e Morientes, por
exemplo. Acho que os três são excelentes como “segundo
atacante”, o que pode ser ótimo para a prática de um futebol
bonito, que é o que tanto espera o Florentino Perez. No entanto, o
time precisa primeiro ser eficiente, e para isso precisa de um
atacante matador.
Caso Van der
Vaart. O holandês foi contratado a peso de ouro na temporada
2008/2009, gestão de
Vicente Calderon, e acabou não conseguindo se firmar no time. Nesta
temporada, Manuel Pellegrini o havia excluído do grupo principal,
mas tendo em vista as vendas de Sneijder e Robben a permanência do
mesmo fez-se necessária. Van der Vaart é o eventual reserva de
Kaká, mas não joga quando o brasileiro é poupado. Na sua opinião, o
que impede o holandês de ser o mesmo jogador que brilhou no
Hamburgo?
Falta ele
mesmo mostrar futebol para isso. O impacto é muito grande ao sair
do Hamburgo e ir para o Real. Na Alemanha, ele era o grande astro
do time e funcionava perfeitamente na função que ele sabia que
renderia melhor. No Real, ele é “apenas mais um”, e não
teve tanto tempo para se adaptar. Este é um dos principais
problemas. Com a pressão que existe no Real, vários jogadores
acabam queimados antes da hora. O Van der Vaart joga muita bola e
poderia ser uma ótima alternativa, como foi logo quando chegou. Tem
alguns problemas físicos e não é confiável nesse sentido, mas pode
encaixar muito bem no meio campo. De uma hora para a outra, a
imprensa e o clube perderam a paciência com ele. Não entendi muito
o motivo. Depois, o próprio jogador passou a entrar em campo sem
demonstrar muita vontade. Aí acho que a culpa é dele. Se encontrar
motivação (e precisa ter!), pode ajudar bastante o Real, pois é um
bom reserva para qualquer função do meio. Se começasse a jogar o
que sabe, poderia até ser titular em um time com Lass, Xabi, ele,
Kaká, CR9 e um atacante. Seria um meio campo de muita qualidade e
com três meias que encostam muito bem ao ataque, com ótimo poder de
finalização. Na atual temporada, gostei bastante de alguns minutos
dele, como na partida contra o Alcorcón, por exemplo, em que ele
lutou muito e jogou bem, apesar do resto do time.
Vamos a uma
das maiores cobranças da torcida madridista: o que jogadores como
Drenthe e Fernando Gago fazem no plantel madridista? Gago foi
contratado junto ao Boca Juniors como grande promessa, mesma
situação de Royston Drenthe, que veio do Feyenoord. Os dois nunca
se justificaram e são mantidos como tesouros no elenco. Em sua
opinião, qual é a razão para a permanência de
ambos?
São apostas
né... Eu nem critico tanto porque sou a favor deste tipo de
contratações. O grande problema é quando eles chegam em um lugar
com muita cobrança e desestruturado, como é o Real, que não tem uma
base definida e nem agrada o torcedor há algum tempo. É muito mais
fácil encaixar uma promessa no Barcelona, por exemplo. E por totais
méritos deles. O Gago mostrava muito potencial no Boca, mas ainda
não evoluiu como o esperado. O principal problema é que ele não
consegue ter regularidade para ser nem o primeiro e nem o segundo
volante. Não tem qualidade no passe para fazer a saída de bola com
qualidade. E também não tem físico para agüentar segurar a marcação
com a eficiência de um Lass, por exemplo. Não acho que o Real deva
descartá-lo. Vamos esperar para ver os próximos anos. Ele tem
algumas qualidades para ser reserva do Lass, mas não pode ser a
salvação. Em relação ao Drenthe, é, sem dúvidas, o jogador que mais
me irrita no elenco. Confesso que acreditava bastante nele,
principalmente depois do Europeu Sub-21 que fez pela seleção da
Holanda, quando jogou demais. Não pode ser lateral de jeito nenhum!
Mas mostrou em algumas partidas (Milan e Racing, recentemente, por
exemplo) que pode evoluir como peça de meio campo, que é como se
destacou no Feyenoord. Mas que entre quando o time estiver
ganhando, para tentar adquirir confiança aos poucos e com menos
pressão.
Vamos para
um assunto crítico: as contratações para a próxima janela de
transferências. Em conversas com alguns amigos blogueiros, três
posições carentes me foram indicadas: a zaga, a lateral esquerda e
o meio campo (volante). Dessa forma, três nomes foram indicados:
Rio Ferdinand, em final de contrato com o Manchester United,
Cristian Chivu, romeno da Inter de Milão que daria a proteção
necessária ao lado esquerdo, já que Sérgio Ramos sobre muito, e
Essien, do Chelsea, que, juntamente com Xabi Alonso, formaria a
melhor dupla de volantes do mundo. Você concorda que essas são as
posições mais carentes do elenco madridista? Cite os jogadores que
poderiam ser contratados para as referidas
posições.
Não sou um fanático por
contratações, de ficar montando times com jogadores que poderiam
vestir a camisa do Real. Claro que os nomes citados seriam bons,
mas não adianta ficar levantando nomes do nada também... Não acho
que o Real precise de volantes. Essien e Xabi Alonso fariam uma
dupla espetacular, mas não é realista. Além disso, sou fã do Lass
Diarra. Acho que ele é peça fundamental em qualquer esquema. A zaga
também não chega a ser desesperadora. Pepe e Albiol são bons
zagueiros e podem dar conta tranquilamente. Metzelder e Garay que
não passam tanta confiança assim como reservas, apesar do argentino
ter entrado bem na maioria das vezes. O maior problema é a lateral
esquerda, sem a menor dúvida. O Arbeloa é apenas regular fazendo a
função e só está ali para resolver o problema enorme que é ter
Marcelo ou Drenthe. Mas é difícil encontrar boas opções para a
posição no mundo. Acho que o Marcelo ainda pode jogar por ali em
alguns jogos, mas não todos. Depende também do Sergio Ramos voltar
a ser o excelente lateral que era até uns dois anos atrás, para
equilibrar o setor defensivo.
O realmadridcf agradece a oportunidade de contar com sua
importante opinião profissional e deseja sucesso em sua promissora
carreira.
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